A Professora de Francês
Ricardo Alves Jr. dirige A Professora de Francês. A brilhante Grace Passô estrela o filme. Ela vive Graça, uma filha dedicada. Sempre que pode, Graça assume o cuidado do pai debilitado. Para isso, conta com o suporte dos vizinhos. A família é muito invasiva. Eles deixam claro que ali não existe vida privada. A família participa de uma congregação religiosa. O filho mais novo ocupa uma espécie de lugar messiânico. Graça tem uma namorada. A comunidade não aceita a relação. Mostra isso em olhares de reprovação e conversas atravessadas.
Um mistério que espreita
Um início misterioso deixa o espectador apreensivo a cada cena. A protagonista é firme. Ela diz o tempo todo que não vai se dobrar. Tem quase o dever de cuidar dos outros, mas não deixa sua existência apagada. O mistério está lá e não se move. Espreita nos silêncios, nas palavras não ditas, nos olhares trocados e nos toques interrompidos.
A tensão sem resposta
Esse mistério e essas perguntas não têm resolução nem resposta. O filme não responde nada de maneira minimamente definitiva. Isso cansa. O filme mantém a tensão até o ponto em que não acreditamos mais que algo vá acontecer. É como ver o menino que grita “lobo” o tempo todo. Desta vez, o lobo não vem.
Germano Melo escreve o roteiro. Ele tenta convencer o espectador de que existe conexão entre as histórias. Mas não conta como os personagens chegaram ali. As palavras saem de suas bocas. Precisamos simplesmente acreditar. Essa falta de ligação dificulta a conexão com eles. Os personagens deveriam formar uma unidade.
Tive duas vontades durante o filme: procurar sentido nas cenas e palavras, buscar coesão na história, e deixar o filme me levar. Escolhi o segundo caminho. O caminho do sentido nem era uma opção. O filme faz o que eu imaginava. Deixa-me à deriva, sem respostas, sem uma grande cena. Fica uma sensação vazia. Isso é triste. A história dá a entender que vai nos levar para um canto escuro. Promete nos apavorar com algo incômodo e até repulsivo. A obra tinha um campo aberto de possibilidades. Uma pena.

Personagens sem unidade
Durante o filme senti o incômodo inicial ao ver Mãe. A trama avançou. Diferente do primeiro, nada aqui me chocou ou causou repulsa. O filme segue quase num “nonsense” de terror. Essa premissa para de fazer sentido quando ele ainda tenta contar uma história. Vemos o filme lutar para se mostrar. Infelizmente, não desenvolve os assuntos que começa. Ficamos sempre querendo saber mais sobre o assunto iniciado. Não terminamos de vê-lo.
O filme aborda o tema de forma ultrapassada. Falar sobre uma sociedade que ainda não aceita a vida de mulheres lésbicas exige mais respeito. O roteiro não mostra soluções aceitáveis para os problemas que cria. O filme esvazia uma pauta. Não faz nada com a vida dessas pessoas. Descarta-as sem propósito. É o descarte pelo descarte.

Grace Passô é definitivamente a melhor atriz da trama. Digo isso não porque os outros profissionais sejam ruins. Digo porque o roteiro não lhes deu oportunidade de mostrar mais. Ele não escreveu personagens profundos. Não lhes deu peso. Todos parecem escadas para a cena ganhar uma ponta de tensão. Essa tensão supostamente nos levaria a algum lugar. No segundo seguinte, solta nossa mão.
O antagonista não sustenta o clima de tensão. Não amedronta. Não causa repulsa. Ele emula clichês de vilões como Damien, de A Profecia. Acerta somente numa versão do “Mau”, de Castelo Rá-Tim-Bum.

Triste Fim
A Professora de Francês é um quase terror e suspense. Não assusta. O suspense se estende por tanto tempo que não causa mais curiosidade nem vontade de saber o que vai acontecer. Quando algo acontece, o maior desejo é que o filme acabe. Aí podemos fazer uma versão dele em nossas cabeças.