Natal Amargo
Recebido de forma morna em Cannes, Natal Amargo (Amarga Navidad), novo longa de Pedro Almodóvar, dificilmente ocupará lugar entre as obras essenciais do diretor. Há aqui uma repetição consciente de temas, estratégias narrativas e jogos metalinguísticos que, desta vez, operam menos pelo impacto e mais pela contenção. Os personagens raramente se impõem de maneira memorável e a narrativa avança sem grandes explosões dramáticas, quase sempre num fluxo discreto e orgânico.
Ainda assim, impressiona como Almodóvar executa esse “mínimo” com absoluto domínio. Mesmo quando parece trabalhar numa chave menor, o diretor constrói um sofisticado exercício sobre autoficção, memória e elaboração artística. O roteiro costura vida e invenção com tamanha naturalidade que o filme passa a interessar menos pelos acontecimentos em si do que pela maneira como seus personagens transformam experiências em narrativa.

Um filme na corda bamba
Não chega a ser um filme particularmente original. Em muitos momentos, “Natal Amargo” ecoa obras recentes que orbitam os mesmos dilemas entre criação artística, trauma e autoeficção. Existe aqui um cineasta aparentemente confortável dentro de seus temas habituais. Mas talvez essa sensação de conforto seja também uma armadilha consciente.
Almodóvar já disse antes que não encontrava valores cinematográficos na expressão da ansiedade e o que vemos em cena não é exatamente a ansiedade enquanto explosão, mas enquanto mecanismo criativo: a compulsão de transformar lembranças, dores e vazios em linguagem.

Aos poucos, o filme sugere que talvez a arte não nasça apenas do trauma, e sim da incapacidade de abandoná-lo. E é nesse movimento que o filme encontra a percepção de que viver, recordar e escrever podem ser processos indistinguíveis.
Camadas de ansiedade intercaladas
A estrutura do filme é relativamente simples, mas engenhosa. Acompanhamos Elsa, personagem de Bárbara Lennie, uma diretora de cinema que se refugiou na publicidade após transformar seus dois filmes em sucessos “cult” — expressão que, em 2004, período em que sua trama se passa, ainda carregava menos ironia do que hoje. Sofrendo com enxaquecas constantes agravadas por crises de ansiedade, está sempre sendo cuidada por seu namorado Bonifácio (Patrick Criado), um bombeiro e stripper de fim de semana, que tenta apoiá-la tanto quanto pode.
Em paralelo, acompanhamos Raúl Durán (Leonardo Sbaraglia), cineasta claramente inspirado no próprio Pedro Almodóvar, inclusive na aparência. Em 2026, ele escreve o roteiro de seu retorno ao cinema após cinco anos sem filmar. Vive entre relações afetivas mal resolvidas com o companheiro mais jovem Santi (Quim Gutiérrez) e a ex-assistente Mónica (Aitana Sánchez-Gijón), enquanto transforma em ficção as dores e deslocamentos emocionais das pessoas à sua volta.

É nesse espelhamento entre Elsa, Raúl e o próprio Almodóvar que Natal Amargo revela sua superfície, e é aqui que precisamos admitir que já o vimos em melhor forma. Porém, pouco a pouco, o filme deixa de tratar a ansiedade apenas como sofrimento psicológico e passa a observá-la como consequência inevitável do ato criativo. Personagem, criador-personagem e diretor ocupam camadas distintas de um mesmo processo: transformar ausência, luto e descontrole em narrativa.
Um conclusão incompleta, mas inquietante
O que emerge desse caldo é uma nostalgia que machuca. A memória produz beleza; a beleza produz nostalgia; e a nostalgia, por sua vez, produz ansiedade. Num tempo saturado por referências, imagens e autoficções, Pedro Almodóvar parece sugerir que criar talvez seja também uma forma de aprisionar-se ao que já partiu.
Em determinado momento, alguém afirma que “a vida não é só escrever e fazer filmes”. Natal Amargo, porém, jamais oferece uma resposta definitiva a essa provocação. Para muitos artistas, talvez seja exatamente disso que a vida é feita — e o filme parece menos interessado em condenar essa obsessão do que em investigar o vazio e o desgaste produzidos por ela.

É nesse ponto que Natal Amargo assume sua forma mais curiosa. A verborragia dos personagens e o ritmo pouco urgente do filme deixam de soar apenas como fragilidades de roteiro e passam a funcionar como sinais de um cineasta incapaz de interromper o próprio impulso criativo. Almodóvar parece reconhecer o desgaste de seu cinema ao mesmo tempo em que insiste nele, como alguém que continua escrevendo não porque encontrou uma nova história indispensável, mas porque já não sabe existir fora desse movimento. A autoconfissão existe, mas o filme só ganha força quando transforma essa exaustão em tema. Justamente no jogo silencioso entre criador e criação.
A escrita em aberto
O prazer do filme passa menos pelas revelações explícitas e mais pela percepção gradual de como Raúl transforma diferentes figuras de sua vida numa única personagem, ou de como os ecos entre autor, personagem e ficção surgem de maneira quase involuntária. A ansiedade deixa então de existir apenas como sofrimento físico — como os olhos de Elsa, obrigados a permanecer na escuridão para aliviar a enxaqueca — e passa a se revelar também como brilho. O brilho inquieto de quem escreve. Um brilho reconhecível apenas por quem já o viu antes.
A partir do momento em que o autor começa a escrever, já não importa quem será atingido pela narrativa. Dane-se a intimidade roubada, danem-se os amores destruídos, danem-se o passado e o futuro. Os personagens podem morrer, se matar ou perder o amor de suas vidas. Só o que não pode parar é a história. Talvez essa seja, no fim, a definição de ansiedade dentro da arte.

Direção: Pedro Almodóvar
Roteiro: Pedro Almodóvar
Edição: Teresa Front
Fotografia: Pau Esteve Birba
Design de Produção: Antxón Gomez
Trilha Sonora: Alberto Iglesias
Elenco: Bárbara Lennie, Leonardo Sbaraglia, Aitana Sánchez Gijón, Patrick Criado
