Supergirl
Há poucos anos, os filmes de super-herói dominavam as salas de cinema. Semanalmente uma produção nova da Marvel ou DC estreava sufocando o lançamento de qualquer outra produção “menor”. Longas que não fossem um grande evento – foi justamente nessa época que Scorsese lançou a fatídica frase “Marvel não é cinema”– rapidamente saíam de cartaz. Marvel era a líder de sucesso, enquanto a DC corria atrás tentando fazer seu próprio universo funcionar, copiando a concorrente ao mesmo tempo que tentava ter uma identidade própria. Vários motivos levaram ao fim do universo DC e as coisas recomeçaram com Superman (2025), de James Gunn – diretor importado dos Guardiões da Galáxia. Agora chega aos cinemas a continuação desse universo com Supergirl (2026), de Craig Gillespie.
Depois de anos com um Superman sombrio e até triste nos filmes de Zack Snyder, Superman teve a missão de trazer um novo olhar para o personagem. A opção adotada foi retornar às origens do herói como um símbolo de esperança e bondade. Deu muito certo. Supergirl chega então, com o intuito de continuar o sucesso da produção de James Gunn e expandir o novo universo da DC. O filme então opta por se passar não só fora da Terra, mas explorando outros planetas, personagens e variantes que podem afetar os kryptonianos. Como, por exemplo, as diferentes cores de sol, que é elemento central na trama.

Supergirl: uma jornada pessoal.
O primeiro grande acerto de Supergirl é concentrar a trama em razões pessoais da protagonista Kara Zor-El (Milly Alcock). No caso, encontrar a cura para seu cachorro Krypto, que foi infectado pelo vilão Krem (Matthias Schoenaerts). O trajeto se torna uma jornada de autodescoberta sobre seu lugar no mundo, superação de traumas e como usar seus poderes. Muito motivado pela personagem Ruthye (Eve Ridley), que a acompanha, mas com o objetivo de assassinar Krem que matou sua família a sangue frio.
Ao restringir o principal objetivo da protagonista a razões pessoais, conseguimos ir mais fundo no seu passado e entender seus traumas, motivações e, no caso de Kara, suas desmotivações. Isso evita a saturação de fórmulas típicas do gênero, onde o mundo sempre esta prestes a acabar e o ápice ao final, era uma luta a beira de um lugar que lançava uma luz intensa em direção ao céu. No caso de Esquadrão Suicida (2016), de David Ayer, em que uma equipe de “vilões” era enviada para resolver um problema desses, apesar da gravidade da situação, parecia que nenhum herói sequer sabia o que estava acontecendo. Mesmo em outras produções do mesmo universo, é mostrado que a Liga da Justiça sempre está de olho nesse tipo de problema.

Feito com calma para fazer direito.
A atriz Milly Alcock consegue manter o carisma que tivemos numa amostra com sua participação em Superman. A personagem foge também de qualquer armadilha de sexualização que geralmente envolve personagens femininas. Acredito que muitos dos filmes desse gênero, pensando nesse novo universo da DC, têm tido mais tempo para serem trabalhados. Quando se faz qualquer coisa às pressas, somente para alcançar a concorrente, as chances de se esbarrar em incongruências e deslizes como esse é maior. A personagem também tem pontos que a diferenciam do seu primo famoso, como matar alguém quando vê necessidade e a própria trama traz razões por ela ser diferente dele.
Outra coisa interessante em Supergirl, é que ela mesma consegue resolver a maioria dos seus problemas. Muitas vezes, quando as coisas estão prestes a dar muito errado, parece que o Superman ou outro personagem masculino vai aparecer para salvar o dia. Mas, majoritariamente, ela ou sua parceira de missão Ruthye, conseguem sair sozinhas das enrascadas da viagem pelo espaço. Tanto que a aparição do tão esperado personagem Lobo (Jason Momoa), parece apenas uma participação de luxo. A impressão é que ele não faz nenhuma falta para a história.

Muito bem feito, mas sem nenhuma grande novidade.
Entretanto, mesmo com todos esses esforços, no final Supergirl, parece mais um filme de super-herói. O filme não traz nada de muito novo, a não ser os cuidados que Patty Jenkins já havia tratado em Mulher Maravilha (2017). Se comparado a Superman, parece que dá uma esfriada no andamento do novo universo da DC. A impressão que dá é que o filme preferiu ficar numa linha segura, dando apenas pequenos avanços e pecando pelo excesso. O que, pensando no desastre que foram outras produções do estúdio, é uma decisão até que acertada. Melhor do que fazer as coisas correndo, tentando alcançar a concorrência e se tornar um exemplo do que não fazer.
