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Este ano, o Festival de Berlim agraciou Dreams (2024), do norueguês Dag Johan Daugerud, com o Urso de Ouro. Dreams é o terceiro filme da trilogia de Daugerud acerca de como as pessoas têm administrado e expressado seus sentimentos e sua sexualidade na Escandinávia da terceira década do século 21. Os outros filmes são Sex e Love, ambos também de 2024.

Vou confessar uma coisa. Como estou preocupada em entender como o mundo está se desenrolando ideologicamente da perspectiva do sul global, tratar de filme escandinavo às vezes me parece um pouco alienante. Me interessam sempre mais os filmes que discutem como a existência de gente não privilegiada, gente subalternizada pelo capitalismo mundial, é afetada em seu espírito pela estrutura civilizatória excludente em que estamos necessariamente inseridos.

Johanna e Johanne

Mas também preciso confessar que me rendo à articulação artesanal, de tear mesmo, que Daugerud, também roteirista de Dreams, nos oferece nesse filme de mulheres brancas. Nele, os conceitos mais estado da arte do feminismo, e do feminismo negro, preciso dizer, estão presentes e o constituem. Dedico este texto a falar dessa tessitura.

As categorias que nos classificam são inventadas

Uma das contribuições mais importantes que o feminismo negro trouxe para a discussão em Ciências Humanas em geral (e nas outras também) é a inserção do corpo como perspectiva e objeto conceitual. Traduzo: o teu corpo te coloca num lugar definido da História, da sociedade e do mundo. O teu corpo te territorializa, te situa em todos os contextos, fatos (aqui estou tratando dos fatos como leituras, como narrativas) em que você pode e pretende estar.

Essa territorialização é definida mediante determinados marcadores, que foram inventados e naturalizados: raça, gênero e classe são os principais, mas também há escolaridade, lugar de nascimento etc. Mas bem poderiam ser outros, como, imaginemos, tamanho da mãos, quantidade de pelos no corpo. E poderiam também ser características não visíveis, como tipo sanguíneo ou quantidade de neurônios no córtex cerebral. As categorias territorializantes há milênios estão dadas, e nos resta pelo menos por ora lidar com elas da forma menos destrutiva possível.

Dreams aula

Dag Johan Daugerud expressa não apenas a leitura de um feminismo corporificado. Reconheço em seus filmes uma tomada de posição radical que exclui de suas histórias qualquer julgamento moral sobre o que seus personagens fazem de seus corpos. Interessa a ele apenas como as novas formas de existir, propostas pelas teorias da subalternidade e incorporadas pelo centro do capitalismo, mexem com a vida das pessoas. Mas, por consequência, essa mexida também afeta seus mundos perfeitos.

Homens falando sobre mulheres: isso dá certo?

Assisti a Dreams pensando naquele velho clichê do Chico Buarque, tido pelo cânone literário como o compreendedor da alma feminina. Desconfio bastante de que o Chico não deve gostar nada desse rótulo. Primeiro porque a alma feminina retratada em suas canções é a da mulher em relações abusivas, em condição de submissão psicológica e obsessão sexual. Era um tempo em que os elementos conceituais discutidos pelo feminismo ainda não haviam ganhado o chão da cozinha, da área de serviço e do quarto de dormir.

Segundo porque esse rótulo cheira fortemente ao que hoje chamamos mansplaining, que é, basicamente, a ideia misógina de que as mulheres não saberiam falar sobre si mesmas (nem sobre nada), cabendo aos homens então falar sobre elas e explicar o mundo para elas. Após a proposta do mansplaining como objeto conceitual, não apenas os filmes sobre mulheres roteirizados e dirigidos por mulheres passaram a receber muito mais visibilidade do que recebiam antes. Com isso, filmes sobre mulheres roteirizados e dirigidos por homens, caso de Dreams, passaram a ser vistos de forma bastante crítica.

Dreams mãe filha e avó

Porém, o feminismo é um campo de conhecimentos que propõe relações horizontais, de partilha e diálogo, e não verticais, de competição e poder. Com isso, abre-se o espaço para que bons filmes sobre mulheres dirigidos por homens sejam bem-vindos. Isso acontece porque esses filmes também ajudam a expandir o campo feminista para constituir tematicamente as mais diversas formas de arte.

Em Dreams, Dag Johan Daugerud fez o dever de casa

Se há uma coisa de que Dag Johan Daugerud em sua trilogia não pode ser acusado é o de não ter feito o dever de casa. Com efeito, ele pega a questão e a leva adiante. Ao manter em figura a paixão da adolescente Johanne (Ella Øverbye) por sua professora Johanna (Selome Emnetu), Daugerud faz com que diversos temas contemporâneos atravessem os desencadeamentos das decisões que a garota toma, às vezes movida pelo desejo, às vezes por outros sentimentos que o desenrolar dos fatos lhe provoca.

É bastante significativo o fato de que o objeto do desejo de Johanne tenha praticamente o mesmo nome que ela. Quanto de projeção narcísica a jovem realiza de si mesma na professora? Quanto esse desejo diz respeito a perspectivas de futuro próprias de Johanne, daquilo que ela quer ser daqui a dez, quinze anos? Como profissional, como mulher? A entrada da mãe e avó de Johanne na história, além de expandir a questão afetiva para uma perspectiva longitudinal, geracional, problematiza o amor romântico. Quando amamos, estamos amando a nós mesmos no outro? Ou, ao amadurecer, permanecemos capazes de amar o outro pelo que ele é, mesmo conhecendo seus defeitos (nem vou colocar aqui a ideia de que podemos seguir amando até os defeitos, porque isso já caracteriza a submissão Buarqueana)?

Gerações

A reação ambígua de Johanna ao saber (reconhecer?) dos sentimentos de Johanne por ela também é um fio atravessante, mas agora conectando DreamsLove e Sex. O problema para os relacionamentos entre adultos e adolescentes se coloca porque neles não haveria, em princípio, equivalência de amadurecimento e capacidade de enxergar e lidar com contextos de relação amorosa e sexual. Johanna sabe disso. Mas, também, em que medida Johanna amou em Johanne o fato de ser desejada por ela? Quanto Johanna amou a si mesma através de Johanne?

A solidão da mulher (negra)

Entretanto, é no enredamento de gerações que Dreams ganha sua singularidade. É aí que o filme se torna um objeto de discussão, vencendo a resistência dos que como eu estão mais interessados em como os cidadãos e cidadãs do sul global vivem seus sentimentos. E é aí que o feminismo negro, que traz o corpo feminino para o centro da conversa, mostra que até as escandinavas são territorializadas. Ou seja: todas as mulheres são territorializadas, assim como todo mundo.

Afetadas pela história de Johanne, sua mãe Kristin (Ane Dahl Torp) e sua avó Karin (Anne Marit Jacobsen) repensam sua vida, o que deixaram de viver e de amar. Mesmo tendo se relacionado sexualmente com inúmeras pessoas, ressentem-se do amor que lhes escapou. O amor platônico vivido com grande intensidade por Johanne lhes acendeu a tristeza de terem deixado escapar, e ainda deixarem, essa vivência emocional.

Dreams a avó

Me parece que isso ocorre independente de terem sido correspondidas ou não. Me parece que se trata da ferida narcísica das mulheres, que é essa solidão de nunca viverem o amor suficientemente, porque esse amor que nos ensinaram a querer não nos é possível, por uma série de motivos, dependendo do território em que estejamos.

O sonho de uma das personagens, um daqueles que também temos, de corrermos sem sair do lugar e nos esforçarmos inutilmente, materializa isso imageticamente, e de uma maneira que será inesquecível. Assim, a nós, mulheres brancas, prometeram um amor que historicamente o ocidente negou às mulheres pretas. Mas esse sonho diz que nos fizeram promessas vazias. Nunca viveremos em plenitude esse amor que nos prometeram. Resta-nos saber o que fazer com essa notícia.


Ficha Técnica
Dreams (2024) – Noruega
Direção: Dag Johan Daugerud
Roteiro: Dag Johan Daugerud
Edição: Jens Christian Fodstad
Fotografia: Cecilie Semec
Design de Produção: Tuva Hølmebakk
Trilha Sonora: Anna Berg
Elenco: Ella Øverbye, Selome Emnetu, Ane Dahl Torp, Anne Marit Jacobsen

 

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